Arquivo de abril de 2010

Café Cooperativo

publicado em 6 de abril de 2010 às 16:57

*Texto extraído da Revista da Folha, nº 909, de 04 de abril de 2010

NA VILA MADALENA, FREQUENTADORES DE UMA CAFETERIA ADOTAM A PRÁTICA DE DEIXAR PAGO O CAFÉ PARA OUTRO CLIENTE: É GRATIS!

por Ivy Farias

Em um prédio no coração da Vila Madalena, os pacientes da psicóloga Adriana Venuto, 49, costumam aguardá-la de uma maneira bem diferente do que a que se vê na maioria das salas de espera da cidade: logo abaixo do consultório em que ela atende, há duas mesas de alumínio, algumas cadeiras e um balcão onde são servidos salgados, doces e café -para você e para o próximo.
O "café do próximo", como é chamada a prática adotada há mais de três anos neste edifício, consiste em deixar a bebida paga para uma outra pessoa: qualquer um pode chegar e tomar um dos cafés que já foi oferecido por alguém, anonimamente. "Quando conheci, achei a ideia simpática e surpreendente", lembra a psicóloga, que descobriu o costume logo que começou a atender no prédio. "Eu não tinha trocado para pagar, eles não tinha troco, então tomei o café que alguém me pagou", conta. Desde então, sempre deixa pago um outro também.
Beth Guido, 58, administradora do Café e Sabor, nome real do local, explica que o método não traz lucro nem prejuízo. "Não tiro nada do caixa, as pessoas simplesmente deixam pago", diz ela. Há três anos, os frequentadores do prédio -a maioria são pacientes de médicos, psicólogos, dentistas- pagam R$ 2,60 por um café para o próximo.
Sugestão do psicólogo e síndico do prédio, Marcos Fleury de Oliveira, 51, a prática se inspirou em uma iniciativa do Café Severino, que fica dentro da Livraria Argumento, no Leblon (Rio de Janeiro). Os cariocas, por sua vez, copiaram a sugestão de um café que existe em Praga, na República Tcheca.
"Trouxe o ‘café do próximo’ para cá porque queríamos deixar de ser um condomínio para nos tornarmos uma comunidade. O café foi um dos jeitos de conquistarmos isso", explica o síndico, primeiro a deixar um café pago para um desconhecido. O costume logo pegou e, com ele, a intenção de "recuperar a solidariedade em São Paulo". Para Fleury, "o café desperta o conforto de alguém ter pensado em você".
Em uma das paredes, ao lado da geladeira, fica uma lousa com o "placar" dos cafés deixados para o próximo -até hoje, 11 foi o maior número marcado. "Uma pessoa resolveu pagar dez", diz Beth. Mas será que há os mais folgados, que se aproveitam da situação? A dona da cafeteria conta que há apenas um frequentador do prédio que costuma beber e nunca pagar.
"Os clientes todos gostam, acham simpático", diz ela.
De acordo com Beth, o hábito de deixar pago só funciona porque o acesso ao estabelecimento é restrito, não é qualquer um que entra. "Não sei se daria certo em um bar na praça da Sé", afirma. O fato é que ali, na Vila Madalena, o café segue funcionando muito bem.