Jogos Cooperativos na Fundação Casa – Relato de Experiência

Karina Pires – email: kfpires@yahoo.com.br

Não tinha a mínima idéia de como seria dentro da Fundação Casa, até ser convidada pela psicóloga Giselda Castro para realizar um dia de jogos cooperativos na unidade Ouro Preto – São Paulo – Vila Maria. Quando aceitei o convite, muitas pessoas acharam que eu era louca de entrar lá sozinha. Talvez eu seja mesmo, mas algo me dizia que esta seria uma experiência incrível.
Na Fundação tudo é muito limpo e organizado. Os meninos realizam tarefas diárias como lavar banheiros, chão, lavar suas louças. Tem aulas de música, artes, sala de leitura, tratamento psicológico, aula de Educação Física e Escultura. São separados da área administrativa por duas portas de ferro e dois seguranças e estas portas funcionam em sistema de clausura. Isto significa dizer que enquanto a que dá acesso ao administrativo abre, a do pátio está fechada. E somente quando a do administrativo fecha é que se abre a outra, lugar onde os meninos ficam. É também o espaço onde eu fiquei e que foram realizadas as atividades no trabalho que focalizei.
A proposta era que os jogos cooperativos pudessem propiciar momentos de descontração aos meninos, já que eles não poderiam mais fumar dentro da Fundação. Tinha como propósito também despertá-los para um lado mais cooperativo, facilitando a compreensão do quanto eles poderiam cuidar mais deles mesmos e dos outros que estão ao redor.
As atividades iniciaram às 9h30 da manhã com um número total de 50 participantes. Às 9h50, havia 10 meninos e cerca de 10 min. depois, o número aumentou para 31. Essa foi a quantidade de participantes, que permaneceu até 16h30 da tarde nas atividades, término da programação.
Dei-me conta de que a queda no número de participantes aconteceu por dois motivos. Um deles foi a escolha da música que levei para o inicio do dia. Acostumada com trabalhos cujos participantes são de classe média/alta, fui infeliz ao pensar que um Axé agradaria, ou que pelo menos os meninos se acostumariam com o som. Essa minha escolha fez com que eu perdesse muitos “pontos” com eles. Se já não bastasse essa minha falha, acreditei na atividade Tocou Colou. Sabia que o risco deles não quererem fazer era grande, mas mesmo assim apostei, e a maioria deles teve muita dificuldade em se tocar. Como disse um dos meninos… “Si tocá não, Senhora, eu so macho, e outro mano tocano im mim, não é legal, não Senhora”. Esse rapaz me marcou e fiquei observando-o do começo ao fim do dia.
Reconquistei o grupo minutos depois com um Black e mudei rapidamente de atividade. Percebi que precisava ir com calma.
Dentre as diversas atividades do período da manhã destaco o Futpar e o Volençol que trouxeram algumas reflexões bem bacanas. No futpar, um deles falou assim “Eu cai muito, Senhora, mas eu sabia que por mais que eu caísse a minha dupla não ia deixá que eu me machucasse e ia me ajudá a lenvantá quando eu caísse”. Outro disse “ é o que falta, ainda mais aqui dentro”. Fiquei bem atenta no que aquele menino que falei no começo ia dizer e quando ele abriu a boca disse “Meu time Ganhou”. Mas segundos depois ele completou a frase “… mais pouco me importo, eu ri muito”.
No período da tarde eu já tinha conquistado a confiança deles e então foi um pouco mais fácil de trabalhar. Também houveram algumas atividades destaques nesse período, que foram João Confiança, ponte de cordas e varal dos sonhos.
Já adianto que ninguém caiu. Na ponte, eles balançavam a corda como se isso fosse mais um desafio para eles. Eu deixei e acabou sendo muito divertido. Começaram a gritar a nome dos funcionários, diretor, para também passarem por cima da corda e dois funcionários passaram… foi bem legal e importante para o grupo. Conversamos um pouco sobre confiança e ajuda e como nós todos podemos ser melhores quando conseguimos confiar em quem esta perto de nós. E para que possamos cuidar das pessoas e ajudá-las, construímos o varal dos sonhos, onde cada um ficou responsável em ajudar um companheiro a realizar o sonho dele.
Neste momento percebi que eu tinha cumprido meu trabalho lá dentro, pois cada um abraçava o seu anjo “cuidador” carinhosamente em gratidão.
E para ter certeza de tarefa cumprida, terminei a tarde focalizando uma dança circular chamada escravos de Jó. Pude reparar, olhando na minha frente, aquele rapaz que observava com mais atenção, no circulo de mãos dadas com outros dois homens.
Essa experiência, que foi inexplicável, me fez perceber que quanto mais eu vivo, mais sei que NADA sei. Aprendi com eles que jamais posso dizer “você é o cara” e que “juiz” é uma palavra abominável lá dentro. Falar a palavra “soltar” então, é “zoar” com a cara deles. Aprendi que não se fala “chega mais”. Na linguagem deles é “cola aqui mano” e que eles são pessoas bem objetivas. Se você fala demais é bem normal ouvi-los dizer “não estica o chiclete”.
Ensinaram-me muitas palavras da linguagem deles e eu ensinei algumas da minha linguagem, mas muito além disso, pude aprender que mesmo com essas diferenças, somos seres humanos sonhadores atrás das mesmas coisas, FELICIDADE e PAZ… sim PAZ. Não acreditaria nisso se alguém me dissesse, mas como tive a chance de olhar nos olhos deles sei, por incrível que pareça, que é o que eles querem.
Todos fizeram algo de ruim, estão ali sabendo disso e tem a oportunidade de repensar nas atitudes e sair de lá, como diz o diretor, RENASCIDOS. Acredito que isso possa de fato acontecer. Olhando nos olhos, senti que na alma de cada um há uma pessoa maravilhosa, mas que ainda não se desenvolveu, porque talvez
não teve oportunidade para tal. As pessoas são aquilo que elas vêem. Aprendem na infância que aquilo é o correto e passam a agir daquela forma. Mas se pararem para refletir e a agir de acordo com o que cada um acredita que é correto para si, creio que conseguiremos enfim, chegar à felicidade plena e assim ninguém precisará mais pagar por ações corruptas.
Por isso eu retruco o SENHORA que eles tanto me chamaram, dizendo “ Obrigada, SENHORES”.
Agradeço a Giselda que me convidou para essa grande experiência. Aos meus amigos, Andressa Pinheiro, Claudia Prado, Cambises Bistricky e Eliana Fausto, que me emprestaram os materiais que foram utilizados nas atividades. À todos os funcionários da Fundação, que estiveram presentes e participaram JUNTOS das atividades cooperativas. Aos meus anjos da Guarda que estiveram comigo o dia inteiro. E aos “manos” participantes que me fizeram perceber a grandeza dos jogos cooperativos e a acreditar que o RENASCER e o RECONSTRUIR são realmente possíveis.

Karina Fernandes Pires

Comments are closed.