Arquivo de setembro de 2009

Jogos Cooperativos na Fundação Casa – Relato de Experiência

publicado em 28 de setembro de 2009 às 18:46

Karina Pires – email: kfpires@yahoo.com.br

Não tinha a mínima idéia de como seria dentro da Fundação Casa, até ser convidada pela psicóloga Giselda Castro para realizar um dia de jogos cooperativos na unidade Ouro Preto – São Paulo – Vila Maria. Quando aceitei o convite, muitas pessoas acharam que eu era louca de entrar lá sozinha. Talvez eu seja mesmo, mas algo me dizia que esta seria uma experiência incrível.
Na Fundação tudo é muito limpo e organizado. Os meninos realizam tarefas diárias como lavar banheiros, chão, lavar suas louças. Tem aulas de música, artes, sala de leitura, tratamento psicológico, aula de Educação Física e Escultura. São separados da área administrativa por duas portas de ferro e dois seguranças e estas portas funcionam em sistema de clausura. Isto significa dizer que enquanto a que dá acesso ao administrativo abre, a do pátio está fechada. E somente quando a do administrativo fecha é que se abre a outra, lugar onde os meninos ficam. É também o espaço onde eu fiquei e que foram realizadas as atividades no trabalho que focalizei.
A proposta era que os jogos cooperativos pudessem propiciar momentos de descontração aos meninos, já que eles não poderiam mais fumar dentro da Fundação. Tinha como propósito também despertá-los para um lado mais cooperativo, facilitando a compreensão do quanto eles poderiam cuidar mais deles mesmos e dos outros que estão ao redor.
As atividades iniciaram às 9h30 da manhã com um número total de 50 participantes. Às 9h50, havia 10 meninos e cerca de 10 min. depois, o número aumentou para 31. Essa foi a quantidade de participantes, que permaneceu até 16h30 da tarde nas atividades, término da programação.
Dei-me conta de que a queda no número de participantes aconteceu por dois motivos. Um deles foi a escolha da música que levei para o inicio do dia. Acostumada com trabalhos cujos participantes são de classe média/alta, fui infeliz ao pensar que um Axé agradaria, ou que pelo menos os meninos se acostumariam com o som. Essa minha escolha fez com que eu perdesse muitos “pontos” com eles. Se já não bastasse essa minha falha, acreditei na atividade Tocou Colou. Sabia que o risco deles não quererem fazer era grande, mas mesmo assim apostei, e a maioria deles teve muita dificuldade em se tocar. Como disse um dos meninos… “Si tocá não, Senhora, eu so macho, e outro mano tocano im mim, não é legal, não Senhora”. Esse rapaz me marcou e fiquei observando-o do começo ao fim do dia.
Reconquistei o grupo minutos depois com um Black e mudei rapidamente de atividade. Percebi que precisava ir com calma.
Dentre as diversas atividades do período da manhã destaco o Futpar e o Volençol que trouxeram algumas reflexões bem bacanas. No futpar, um deles falou assim “Eu cai muito, Senhora, mas eu sabia que por mais que eu caísse a minha dupla não ia deixá que eu me machucasse e ia me ajudá a lenvantá quando eu caísse”. Outro disse “ é o que falta, ainda mais aqui dentro”. Fiquei bem atenta no que aquele menino que falei no começo ia dizer e quando ele abriu a boca disse “Meu time Ganhou”. Mas segundos depois ele completou a frase “… mais pouco me importo, eu ri muito”.
No período da tarde eu já tinha conquistado a confiança deles e então foi um pouco mais fácil de trabalhar. Também houveram algumas atividades destaques nesse período, que foram João Confiança, ponte de cordas e varal dos sonhos.
Já adianto que ninguém caiu. Na ponte, eles balançavam a corda como se isso fosse mais um desafio para eles. Eu deixei e acabou sendo muito divertido. Começaram a gritar a nome dos funcionários, diretor, para também passarem por cima da corda e dois funcionários passaram… foi bem legal e importante para o grupo. Conversamos um pouco sobre confiança e ajuda e como nós todos podemos ser melhores quando conseguimos confiar em quem esta perto de nós. E para que possamos cuidar das pessoas e ajudá-las, construímos o varal dos sonhos, onde cada um ficou responsável em ajudar um companheiro a realizar o sonho dele.
Neste momento percebi que eu tinha cumprido meu trabalho lá dentro, pois cada um abraçava o seu anjo “cuidador” carinhosamente em gratidão.
E para ter certeza de tarefa cumprida, terminei a tarde focalizando uma dança circular chamada escravos de Jó. Pude reparar, olhando na minha frente, aquele rapaz que observava com mais atenção, no circulo de mãos dadas com outros dois homens.
Essa experiência, que foi inexplicável, me fez perceber que quanto mais eu vivo, mais sei que NADA sei. Aprendi com eles que jamais posso dizer “você é o cara” e que “juiz” é uma palavra abominável lá dentro. Falar a palavra “soltar” então, é “zoar” com a cara deles. Aprendi que não se fala “chega mais”. Na linguagem deles é “cola aqui mano” e que eles são pessoas bem objetivas. Se você fala demais é bem normal ouvi-los dizer “não estica o chiclete”.
Ensinaram-me muitas palavras da linguagem deles e eu ensinei algumas da minha linguagem, mas muito além disso, pude aprender que mesmo com essas diferenças, somos seres humanos sonhadores atrás das mesmas coisas, FELICIDADE e PAZ… sim PAZ. Não acreditaria nisso se alguém me dissesse, mas como tive a chance de olhar nos olhos deles sei, por incrível que pareça, que é o que eles querem.
Todos fizeram algo de ruim, estão ali sabendo disso e tem a oportunidade de repensar nas atitudes e sair de lá, como diz o diretor, RENASCIDOS. Acredito que isso possa de fato acontecer. Olhando nos olhos, senti que na alma de cada um há uma pessoa maravilhosa, mas que ainda não se desenvolveu, porque talvez
não teve oportunidade para tal. As pessoas são aquilo que elas vêem. Aprendem na infância que aquilo é o correto e passam a agir daquela forma. Mas se pararem para refletir e a agir de acordo com o que cada um acredita que é correto para si, creio que conseguiremos enfim, chegar à felicidade plena e assim ninguém precisará mais pagar por ações corruptas.
Por isso eu retruco o SENHORA que eles tanto me chamaram, dizendo “ Obrigada, SENHORES”.
Agradeço a Giselda que me convidou para essa grande experiência. Aos meus amigos, Andressa Pinheiro, Claudia Prado, Cambises Bistricky e Eliana Fausto, que me emprestaram os materiais que foram utilizados nas atividades. À todos os funcionários da Fundação, que estiveram presentes e participaram JUNTOS das atividades cooperativas. Aos meus anjos da Guarda que estiveram comigo o dia inteiro. E aos “manos” participantes que me fizeram perceber a grandeza dos jogos cooperativos e a acreditar que o RENASCER e o RECONSTRUIR são realmente possíveis.

Karina Fernandes Pires

Jogos Cooperativos no Projeto Agentes da Paz

publicado em 23 de setembro de 2009 às 23:50

untitledMatéria publica na Revista Nova Escola-Gestão Escolar, de abril de 2009, sobre a inclusão dos Jogos Cooperativos como uma ferramenta para a promoção da Paz dentro da Escola Estadual Hilda Teodoro Vieira, em Florianópolis-SC. Esta ação fez parte do Projeto Agentes da Paz de Santa Catarina. As imagens foram feitas durante a realização de Oficinas voluntárias de Jogos Cooperativos, realizadas por Sidnei Soares do Projeto Cooperação.

CLIQUE AQUI para ler a reportagem completa.

CLIQUE AQUI para ver as imagens.

Jogos Cooperativos na Fundação Casa – Relato de Experiência

publicado em 23 de setembro de 2009 às 18:50

Por Karina Pires

Não tinha a mínima idéia de como seria dentro da Fundação Casa, até ser convidada pela psicóloga Giselda Castro para realizar um dia de jogos cooperativos na unidade Ouro Preto – São Paulo – Vila Maria. Quando aceitei o convite, muitas pessoas acharam que eu era louca de entrar lá sozinha. Talvez eu seja mesmo, mas algo me dizia que esta seria uma experiência incrível. Na Fundação tudo é muito limpo e organizado. Os meninos realizam tarefas diárias como lavar banheiros, chão, lavar suas louças. Tem aulas de música, artes, sala de leitura, tratamento psicológico, aula de Educação Física e Escultura. São separados da área administrativa por duas portas de ferro e dois seguranças e estas portas funcionam em sistema de clausura. Isto significa dizer que enquanto a que dá acesso ao administrativo abre, a do pátio está fechada. E somente quando a do administrativo fecha é que se abre a outra, lugar onde os meninos ficam. É também o espaço onde eu fiquei e que foram realizadas as atividades no trabalho que focalizei. A proposta era que os jogos cooperativos pudessem propiciar momentos de descontração aos meninos, já que eles não poderiam mais fumar dentro da Fundação…leia mais.

Pós-Graduação em Jogos Cooperativos – Inscrições abertas

publicado em 22 de setembro de 2009 às 22:23

imageJá estão abertas as inscrições para a nova turma da Pós-Graduação em Jogos Cooperativos em Santos-SP. O curso está caminhando para sua décima primeira turma, que terá início em março de 2010, numa parceria entre Projeto Cooperação e Unimonte. É uma excelente oportunidade para aqueles que querem aprofundar o conhecimento, a pesquisa e a aplicação do Jogos Cooperativos na educação, em organizações de todos os setores, em comunidades e no processo de desenvolvimento pessoal. Para saber mais sobre a duração do curso, módulos, docentes,  valores e outras informações, clique aqui e venha fazer Jogar COM a gente.

Entrevista de Fábio Brotto para a Revista Educação

publicado em 8 de setembro de 2009 às 12:47

Entrevista Fábio Otuzi Brotto
Revista Educação
Junho 2003

1) Não é uma utopia falar em jogos cooperativos num país que tem o futebol como paixão nacional?
Poderíamos pensar assim, caso estivéssemos realizando esta conversa há 12 anos atrás, quando o PROJETO COOPERAÇÃO iniciou a difusão de Jogos Cooperativos, no Brasil. Naquela época, boa parte das instituições, grupos e pessoas pensavam que a Competição era o único modo de vida possível e aceitável para resolver os problemas e realizar todas as metas desejadas. Hoje, falar em Jogos Cooperativos e promover a Cooperação como um Estilo de Vida, é bem diferente. Especialmente, neste país apaixonado pelo Futebol Pentacampeão e cada dia mais, desafiado a alcançar vitórias reais em campos bem mais complexos e sensíveis, tais como, no da Justiça Social, Educação Cidadã e Qualidade de Vida para todos, sem exceção. Em meu ponto de vista, somente através da prática de Jogos Cooperativos no dia-adia, é que estes “Campeonatos” poderão ser realmente conquistados!

2) O sr. defende que tanto a competição quanto a cooperação são valores culturais e não características inerentes à espécie humana. Mas vivemos em um mundo cada vez mais competitivo. Como essas informações podem ser trabalhadas na escola?
Competição e Cooperação são aspectos presentes em muitas formas de vida. Nos Seres Humanos podem se manifestar mais ou menos intensamente dependendo das escolhas que fazemos, individual e coletivamente, isto é, variam de acordo com a Cultura construída e sustentada por nossos pensamentos-sentimentos-atitudesrelacionamentos.
Nos Jogos Cooperativos costumamos dizer que existem muitos Jeitos de Ver-e-Viver a Vida… e são muitos os Jeitos (in)possíveis. Sendo capazes de reconhecer diferentes alternativas para Jogar-Viver, podemos escolher aquela que mais nos agrada, não é? Talvez, precisemos aprender a VER MELHOR para poder VIVER MELHOR. E esta pode ser uma excelente contribuição a ser dada pela Escola, uma profunda e larga alfabetização do Olhar o mundo, os outros e a si mesmo… para re-encontrar o que é Como-Um a todos
Nós!

3) Torcer para o time, xingar a mãe do juiz e usar malícia no jogo não faz parte do “espetáculo” do esporte?
Sim, faz parte. Como também faz parte do Esporte aprender sobre como ser mais íntegro e respeitar a integridade uns dos outros; como aperfeiçoar os fundamentos do Jogo e potencializar os princípios de uma co-existência pacífica; como lidar com os limites externos e descobrir algumas ilimitações internas; como valorizar as “pequenas vitórias” mesmo em meio a “aparentes derrotas”; como reconhecer um Solidário por trás do uniforme de um pseudo-adversário; e como celebrar cada gol, cada cesta, cada gesto, cada ponto… como um presente singular oferecido pela Vida para nosso infinito Jogar… Sim, tudo isto e muito mais, faz parte do mesmo “espetáculo”. Por isso, saibamos fazer nossas escolhas sobre qual “espetáculo” desejamos ver acontecendo nos campos do Esporte e da Vida.

4) Há quanto tempo existe o Projeto Cooperação? Como surgiu a idéia?
O Projeto Cooperação – Comunidade de Serviço, nasceu em Santos-SP, no ano de 1992 e desde 2002, estamos também em Florianópolis-SC. Surgimos pelo propósito de reunir pessoas, grupos e organizações para difundir Jogos Cooperativos e promover a Cooperação para Construir um Mundo onde Todos podem VenSer… Juntos! Hoje, somos um grupo de 16 pessoas atuando em quatro grandes Focos: Publicação de Livros e Boletins – Realização de Oficinas e Cursos – Organização de Eventos Cooperativos – Pós-graduação e Intercâmbio. Atualmente, desenvolvemos vários programas em parceria com diversas instituições, tais como: Associação Palas Athena (São Paulo), Universidade Holística Internacional (Brasília), Centro de Vivências Nazaré (Nazaré Paulista), Suryalaya (Salvador), SESC (São Paulo e Rio de Janeiro), UNESCO (Brasília) e La Peonza (Espanha).

5) Quais são os objetivos dos Jogos Cooperativos?
Claro, o principal objetivo dos Jogos Cooperativos é estimular a Cooperação em quatro níveis interdependentes: Consigo mesmo, Com os outros, Com o inteiro-ambiente e Com a Comum-Unidade. Para alcançar este objetivo maior, procuramos criar ambientes de Ensinagem Cooperativa suficientemente potentes para promover o desenvolvimento de algumas das principais Co-Opetências da Cooperação, tais como: Confiança mútua, Liderança Circular, Comunicação Colaborativa, Criatividade Compartilhada, Centramento, Bom humor, Liberdade, Co-responsabiliade e Paz-Ciência.

6) O sr. atribui aos jogos alguns valores que extrapolam os limites do campo
ou da quadra. Que valores seriam esses?

Por que os Jogos são tão importantes para o desenvolvimento humano? Porque nossa maneira de Jogar reflete nossa maneira de Viver. Assim, podemos melhorar nosso Jeito de Viver aperfeiçoando nosso Jeito de Jogar. Nos Jogos Cooperativos encontramos diferentes desafios que simulam a necessidade de resolver problemas, harmonizar conflito e realizar metas e objetivos, nas mais variadas situações de nossa vida cotidiana. A idéia por trás dos Jogos Cooperativos é aperfeiçoar o Estilo de Jogar de cada pessoa e do grupo. Em outras palavras, buscamos despertar virtudes, qualidades, talentos e valores essenciais para a Vida em sociedade, como por exemplo: honestidade, desapego, simplicidade, beleza, empatia, força de vontade, cumplicidade, reciprocidade, amorosidade, respeito e Cooperação. Parafraseando a Palas Athena, diria que são “Valores que não tem preço”… e nem lugar exclusivo!

7) O que é futepar? E a dança das cadeiras cooperativas?
Existem muitos tipos de Jogos Cooperativos: Semi-Cooperativos, Jogos de Inversão, Jogos de Resultado Coletivo, Jogos Cooperativos de Tabuleiro, Jogos de Trans-Formação e Jogos Cooperativos propriamente ditos. É importante saber sobre estas e outras modalidades quando desejamos oferecer Jogos Cooperativos para algum grupo, numa determinada situação, pois muito do sucesso ou fracasso de um programa está na adequação dos Jogos a serem utilizados. O Futepar é um Jogo Semi-Cooperativo, porque aumenta o estímulo para Cooperação dentro de cada equipe e diminui a Competição entre as equipes. Em geral, é praticado como um Jogo de Futebol normal, sendo que joga-se em duplas e com as mãos dadas. É bastante desafiador e divertido, incentivando os jogadores(as) a ajustar os ritmos individuais num jeito de jogar Como-Um. Já a Dança das Cadeiras Cooperativas é um Jogo Cooperativo propriamente dito… ou pelo menos, espera-se que sim! Baseado na brincadeira tradicional da Dança das Cadeiras, onde existe somente um(a) ganhador(a), este Jogo convida os participantes a terminar o Jogo com TODOS sentados nas cadeiras que sobrarem. Vai-se retirando cadeiras e todos permanecem jogando e descobrindo maneiras para sentar e VenSer… Juntos! Vale lembrar uma coisa: Um Jogo Cooperativo não garante que haverá Cooperação. Apenas oferece melhores condições para que ela aconteça. Assim, é recomendável preparar adequadamente cada seção de Jogos Cooperativos, propondo desafios compatíveis com cada pessoa e grupo.

8) Dentro desse contexto, jogos de tabuleiro, como os clássicos War, Banco Imobiliário e Imagem e Ação, são “nocivos”? Nem o xadrez escapa?
Gisela e eu, somos pai-mãe de três crianças: Tiê (11), Ilê (7) e Lyz (2). Brincamos bastante com eles e tentamos incentiva-los a Jogar Cooperativamente, em casa. Preferimos os Jogos Cooperativos de Tabuleiro (Jogo da Terra e o Jogo Lugar Bonito), mas eles gostam também de outros jogos não propriamente cooperativos. Então, jogamos com eles o Banco Imobiliário, Imagem e Ação, Xadrez, Roba-Monte, Vídeo Game (os de luta não!)… e tentamos descobrir juntos, como Jogar Cooperativamente Jogos Competitivos. Muitas vezes, é mais importante aprender a lidar com a Competição a partir de uma Consciência Cooperativa, ao invés de evita-la ou ignora-la. Ah! Já existe Xadrez Cooperativo, viu?!!!

9) O ensino de educação física muitas vezes é visto como recreação nas escolas. Por que essa disciplina é tão desvalorizada?
Provavelmente, por desconhecimento das muitas possibilidades e contribuições que ela pode oferecer para o desenvolvimento do Ser Humano Integral e para a promoção da Cidadania e Qualidade de Vida pessoal e coletiva. Vejo a Educação Física (Physis=Vida) como uma área tão importante como todas as demais presentes na escola e além dela e procuro vive-la de acordo com sua grandeza. Atualmente, não é difícil encontrar Professores e Professoras de Educação Física entre aqueles “prediletos” da moçada na escola e também, ocupando cargos de direção em diferentes níveis da Educação. Isto é real para todos aqueles Professores(as) de Educação Física dedicados a realizar sua vocação para despertar o que há de melhor no coração de cada um e de todos. Isto é diferente do que fazer despontar os melhores-piores, vencedores-perdedores, bons-maus… uns-e-tais.

10) A formação que as universidades oferecem tem preparado bons professores de Educação Física?
Com certeza! Uma boa parte das Universidades e Faculdades dirigidas a formação e atualização de Professores(as) de Educação Física está sintonizada com os novos desafios impostos pelo Jogo Planetário. Diante da diluição das fronteiras internacionais, do encurtamento das distâncias entre os povos, da mundialização dos problemas e recursos e da eminente necessidade de reequilíbrio entre as muitas ecologias existentes no âmbito individual e coletivo; é preciso responder com um novo conjunto de habilidades e talentos. Não mais a capacidade de Fazer Mais do que outros para Ganhar Sozinho, mas, sim, a Co-Opetência de Fazer Melhor COM os outros para VenSer Juntos! Nesse sentido, muitas re-visões estão sendo processadas na formação e no campo de atuação da Educação Física. E um dos sinais dessa renovação é a inclusão dos Jogos Cooperativos como disciplina curricular na Graduação e a realização de Cursos de Pós-graduação Lato Sensu em Jogos Cooperativos, como o que realizamos em Santos-SP, em parceria com a UNIMONTE e em Florianópolis-SC, através de um Convênio de Cooperação Institucional com o CESUSC. Bons tempos!

11) Você gosta de futebol? Torce para que time?
Olha, sou do tempo que a gente brincava na rua e construía “campinhos de futebol” em terreno baldio. Jogávamos com bola de capotão, devidamente cuidada com camadas de sebo de boi. Não sou lá um craque, mas naquele tempo o que importava era o prazer de fazer parte da turma e chegar em casa com a sensação de um dia vivido intensamente. E tinha mais. Jogava Basquete, Vôlei, Andebol, corria, saltava, andava de bicicleta, soltava pipa, fazia carrinho de rolemã, brincava de esconde-esconde e polícia-e-ladrão… tudo na rua. Desde pequeno, em Rio Claro-SP, pulava o muro do estádio para torcer pelo Velo Clube; então mudei para Sampa e assumi Ser Palmeirense; casei, fui para Santos-SP e com os filhos, virei “Peixe”; agora, estou decidindo Ser Avaí ou Figueirense, mas confesso, aqui em Floripa-SC, tenho muito menos pressa, porque o que afinal interessa é que continuemos bem à beça… Juntos!

Entrevista de Fábio Brotto para a Revista Jogos Cooperativos

publicado em 8 de setembro de 2009 às 12:06

Entrevista concedida – e publicada – à REVISTA DE JOGOS COOPERATIVOS.
Junho/2001

Em uma tarde chuvosa na cidade de Santos, conversamos com um dos marcos referências dos Jogos Cooperativos no Brasil, Fábio Otuzi Brotto. Sentamos no chão com uma vela acesa no centro de um círculo imaginário, tivemos uma aula de filosofia de vida, cidadania e otimismo. Nossa conversa de mais de duas horas não pode ser condensada em apenas quatro páginas, mas estamos certos que vocês poderão conhecer um pouco mais deste ser humano disposto a ampliar o foco pessoal para envolver todo o grupo.

Fábio, quem é você?
Sou Fábio, marido da Gisela, pai do Tiê, do Ilê e da Lyz . Uma pessoa de 40 anos que está descobrindo um pouco sobre como viver junto com os outros. Conviver no dia a dia, tem sido um desafio cada vez maior. Atuando no Projeto Cooperação, juntamente com cerca de dez pessoas, estamos sempre nos desafiando a viver a cooperação entre nós, porque sabemos ser preciso exercitá-la cotidianamente. Agora, temos nos movimentado para que a sociedade perceba o Projeto Cooperação como uma comunidade de pessoas a serviço da Cooperação, ao invés, de identificá-lo como o “Projeto do Fábio”. Mas, olha, este está sendo um grande estímulo para nossa criatividade, humildade, confiança e
desapego.

Como assim? Você poderia explicar melhor?
Hoje, sinto-me como uma pessoa que está nesse transe, nesse trânsito. Descobrir melhor quem eu sou e como me articular com os outros para resgatar quem somos nós.
A história de minha vida está muito ligada a questão do Jogo, do Esporte e da Educação Física. Fui atleta por muito tempo e também, técnico de basquete. Aprendi o valor de buscar ser quem somos autenticamente e ao mesmo tempo, cuidar do “espírito de grupo”. Mesmo assim, vivi muitas vezes, embriagado pela lógica da competição, a lógica do quanto menos os adversários souberem quem eu sou, mais chances terei de vencer.
Aprendi e ensinei muito sobre isso. Quando comecei a me dar conta disso, vi que alguma coisa estava meio desarrumada. Então, passei a rever e a refinar a filosofia e pedagogia empregadas no meu trabalho. Foi quando despertei, de uma forma mais consciente, para a importância da Cooperação no Jogo e na minha Vida. Daí, para o primeiro contato com os Jogos Cooperativos, foi um pulinho!

E desse “pulinho” para o salto criativo do Projeto Cooperação, o que aconteceu?
Naquele determinado momento comecei a perceber melhor o que havia por trás dos uniformes, das barreiras, do pódium, placares e de tantas outras simulações experimentadas e ensinadas no Jogo. Pude ver de um jeito diferente muito do que vinha vivendo até então. Essa nova visão do Jogo e da Vida pedia novas ações, um novo Estilo de Jogo. A partir daquele imaginei realizar um projeto para realizar minha transformação… sonhei um Projeto Cooperação!

Você consegue situar no tempo um ponto que marcasse esse momento de descoberta?
Vejo vários pontos de ignição, vários pequenos flashes que foram acontecendo como pequenas “cutucadas” para acordar. Mesmo considerando o conjunto desses pequenos acontecimentos como o facilitador das transformações em minha vida, gosto de lembrar de um fato terrível e muito feliz. É estranho e engraçado, não é? Para mim, foi uma das principais “cutucadas”. Bem, foi em 1984, quando fui pela primeira (e única) vez demitido. Era técnico de basquete em um clube de São Paulo, já há 4 anos. Achava que fazia um trabalho muito bom, tinha o reconhecimento das crianças, dos jovens, até dos pais e da comunidade esportiva. Num belo dia (pra muita gente), quando voltava das férias, recebi um telegrama em casa. Estava demitido e por telegrama, caramba!!! Fiquei bastante bagunçado com aquilo. E aos poucos, fui aprendendo a lição. Tudo é impermanente, por isso, viva inteiramente, o presente! Outra “cutucadinha” boa, recebi quando entrei na USP em 1982, com 22 anos, para ser técnico da Seleção de Basquete masculina e feminina. A maior parte dos atletas eram mais velhos que eu, tinha professor da universidade, doutor, mestre e mesmo no feminino as meninas tinham mais ou menos a minha idade. Por essas circunstâncias e tantas outras, personificava o tipo “bom garoto” ,“técnico perfeito”. Jamais me alterava, era um exemplo de eficiência profissional, nada me abalava nos treinos e nem nos jogos (pelo menos, era isso que aparentava, né?). Após três anos trabalhando, estava dando treino para a seleção feminina, em duas quadras simultâneas, para umas 60 meninas. De repente, depois de um erro de uma das atletas, fiquei furioso, peguei a bola e a chutei para o alto! As 60 pararam espantadas com aquilo, quando uma delas, uma das mais antigas do grupo, olhou para mim e falou assim: “Fábio, ainda bem que você não é Deus.” Olha, que lição eu recebi ali: Ser eu mesmo.

E você aprendeu essa lição?
Ainda não, totalmente. Tenha tentado desconstruir e recriar aspectos da minha personalidade. Aprendi a ser um “bom modelo” , uma “pessoa perfeita”, que não dá vexame, não grita, não expressa o que sente, a ser alguém para atender as expectativas do outro. Por outro lado, fui muito amado e encorajado a arriscar e me aventurar, a ousar
ser mais leve e ficar à vontade… da vida! E assim, a vida tem me oferecido brechas extraordinárias para a transformação. Em 1986, fui novamente chacoalhado e de um modo muito especial. O falecimento de meu pai foi um marco bem decisivo no percurso da
minha existência (como penso que seja para todo mundo, também). Pela primeira vez, vivi e expressei a dor, solidão, insegurança, saudade, fragilidade… deixei cair a imagem de perfeição e pude entrar em contato comigo mesmo, através da dor-e-do-amor e então, poder chegar mais perto, realmente, dos outros. Creio ter sido este o “ponto de mutação”, pelo menos, o “ponto de ignição” para uma nova e verdadeira jornada interior.

Falando nisso, você poderia falar um pouco sobre seu encontro com os Jogos Cooperativos?
Logo após a morte de meu pai, voltei ao curso de psicologia que havia interrompido anos antes. De novo na faculdade, interessei-me pela Psicologia Transpessoal. Em 1989, tive o privilégio de fazer parte do grupo de estudos em Transpessoal, com a Profa. Márcia Tabone, uma das precursoras do tema no Brasil. Durante os encontros minha inquietação foi aumentando, até que compartilhei com ela e outras pessoas do grupo: “estou com essa inquietação, não sei bem…estou fazendo uma coisa que já não sei se é isso que eu quero fazer. Estou encantado com algumas outras coisas, mas tenho insegurança para
mudar.” Uma colega sugeriu ter paciência e fluir de acordo com o ritmo da vida. Disse que naturalmente, algumas coisas passam a perder a força, enquanto outras ganham energia até se manifestarem plenamente. A Márcia, disse: “fala com a Neyde Marques, da Bahia. Ela está participando da criação da Universidade Holística, em Brasília”. Bem, segui essas duas pistas: desenvolvi a “paz-ciência” e… liguei pra Neyde. Lembro disso muito claramente: A Gisela e eu, em um orelhão falando: “Neyde, aqui é o Fábio, a Márcia me indicou…”. Falamos bastante, recebi outras pistas e o telefone da Universidade Holística. Logo depois, em julho de 1988, estava eu lá na UNIPAZ, desfrutando de um seminário sobre Direitos Humanos e Educação para a Paz. Lá, recebi muita inspiração para minha Trans-Piração e, essencialmente, encontrei, como se ao acaso, a Fabienne Lopez, uma professora da Escola das Nações, de Brasília, realizando um jogo bem esquisito, muito estranho: a Dança das Cadeiras Cooperativas. Pronto, minha procura havia encontrado o que buscava: os Jogos Cooperativos!

E qual é o melhor público para se utilizar os Jogos Cooperativos?
Em 1990, no Centro de Práticas esportivas da Universidade de São Paulo – CEPEUSP, o Prof. Jofre Cabral e eu, começamos a pesquisar e experimentar um pouquinho sobre isso. Em 1991, implantamos um programa de Jogos Cooperativos para a comunidade universitária (professores, alunos, funcionários e dependentes). No primeiro ano, trabalhamos com um grupo de 06 pessoas. Era pouco, mas o suficiente para nos fazer acreditar que era possível. Aquilo foi tão forte para mim, que no ano seguinte, pedi uma licença da universidade para dedicar-me integral e totalmente a investigação e vivência dos Jogos Cooperativos em outros segmentos. De lá para cá, temos compartilhado os Jogos Cooperativos com todo tipo de pessoa e grupo, qualquer que seja o segmento e a faixa etária, quer sejam educadores, empresários, líderes comunitários, jovens ou idosos, todos têm uma boa oportunidade para experimentar a força e a beleza da Cooperação através dos Jogos Cooperativos.

Podemos dizer, então, que Jogos Cooperativos é um bom recurso para desenvolver pessoas?
Mesmo existindo outros recursos tão flexíveis e potentes como os Jogos Cooperativos, considero-os como um exercício de descoberta pessoal e transformação grupal, particularmente, privilegiado. Sob o ponto de vista pedagógico é totalmente adequado para uma criança de 05 anos, bem como para um executivo de 50. Serve tanto para o aluno, como para o professor, atende ao funcionário e ao presidente da empresa, envolve filhos e pais e abraça seres humanos, a natureza e todos os reinos como aspectos de uma mesma totalidade. Temos visto acontecer trabalhos muito bem sucedidos, envolvendo todos esses segmentos, tanto no Brasil como no exterior. Contudo, é um caminho repleto de desafios. O principal deles, para mim, é compreender que os Jogos Cooperativos podem ser algo além da técnica, mais que um recurso ou ferramenta. Jogos Cooperativos pode ser um “Estilo de Jogo”, uma “Filosofia de Vida”, uma “Pedagogia para VenSer”, ou seja, uma caminho para exercitar o Ser quem somos cada um de todos nós!

O quanto cada um de nós olha para si mesmo? O quanto cada um de nós sabe qual é a nossa vocação?

Há uma dimensão essencial do Jogo Cooperativos. É o Jogo Interior. Aquele que jogamos para dentro, com a gente mesmo, descobrindo maneiras de nos harmonizar internamente para cooperar externamente. Investigar ludicamente nossas mais essenciais aspirações, pode nos ajudar a realizar nossas ocupações de um modo mais eficiente e feliz. Conectar-se com a própria vocação, com aquilo que genuína e realmente temos a oferecer ao mundo, pode nos trazer bem-estar pessoal e social. Penso que isto é uma tarefa de permanente afinação do instrumento que somos cada um de nós, visando poder compor-se com outros diferentes e semelhantes instrumentos, para tocar uma partitura como-um. É preciso des-cobrir nosso jeito de Ser e InterSer no mundo. Desse modo, todos são importante e imprescindíveis. Não mais e nem menos, nem melhores ou piores, tampouco perdedores ou vencedores. Somos algo além dessas fragmentações e polarizações, somos “inteiros e não pela metade”!

Normalmente surge a discussão sobre a natureza do ser humano ser
competitiva. A maioria das pessoas acredita que sim, e você?

Acredito que ao procurarmos investigar a natureza da competição, é preciso colocar pontos de interrogação, onde costumeiramente encontramos pontos finais. Assim, respondo com outras perguntas: Se nossa natureza é competitiva, o que tem nos feito existir de maneira gregária e solidária? O que nos faz dar apoio há alguém? Prestar um serviço à outra pessoa? Se nossa natureza é competitiva, o que faz nosso organismo buscar a harmonia, o bem-estar? Se a competição é natural, deveria ser predominante nas diferentes formas de vida, não é mesmo? Porém, sabe-se que não ocorre desse modo. Atualmente, há muitas evidências científicas e outras, assinalando a cooperação como uma das características essenciais a vida. Por exemplo, os estudos mais recentes de Humberto Maturana, apontam para uma “Biologia do Amor”, tendo a cooperação como um de seus alicerces. Para mim, a natureza da vida é uma natureza de possibilidades. Tanto podemos ser individualistas e competitivos, como podemos ser solidários e cooperativos. E claro, podemos ser, em certos momentos, uma mistura de competição e cooperação. Por isso, penso que devemos colocar nosso foco no poder de escolha que está disponível para todos nós, seres humanos. Somos 100% co-responsáveis por tudo que somos e fazemos. Portanto, a pergunta fundamental é: o que queremos fazer da nossa única vida como-um? Podemos Jogar uns contra os outros para ganhar sozinho OU podemos escolher jogar uns com os outros para construir um mundo onde todos podem VenSer. Façamos nossas escolhas… e saibamos assumir a responsabilidade por elas.

Qual a dica que você dá para quem mexe com os Jogos Cooperativos, inclusive para quem está começando agora a ter contato com eles?
Acredito que estamos todos buscando o melhor em suas vidas. Para mim, essa procura está intimamente atrelada a des-coberta de um caminho pessoal, antes de uma competência profissional, a busca por uma clareza vocacional. Isto é fundamental! Para mim, a Cooperação é uma facilitadora dessa descoberta. Sei que sozinho posso seguir em frente, mas vou muito menos longe e não tão bem e feliz, como se fosse junto com alguém. Também, sei que cooperar é um desafio pra lá de grande… mas, não vejo outro jeito senão aventurar-me pelo encontro com os outros para achar a mim mesmo. Por isso, trabalhar com os Jogos Cooperativos é, além de muitas outras coisas, uma maneira que criamos para nos alfabetizarmos na Cooperação. Aqueles que participam de Oficinas, Palestras, lê nossos livros, esta revista, vai aos Festivais… são como mestres-aprendizes
nessa escola de Cooperação. Imagino que aos poucos estamos construindo uma maravilhosa Comum-Unidade de Aprendizagem da Cooperação, onde todos ensinam e todos aprendem, a todo momento, com todos as coisas e para sempre. Hoje, confio que a cooperação é favorece a continuidade da vida. Sou uma pessoa confiante e acredito nisso. O mais desafiante nos Jogos Cooperativos é manter a confiança na Cooperação, especialmente, quando o Jogo parece desandar. Neste exato momento, podemos servir como pequeninos pontos de ancoragem da Consciência da Cooperação no cotidiano. Saibamos disto e cuidemos uns dos outros como parceiros essenciais neste Jogo Infinito. Ah! Uma dica?

Sigamos juntos… con-fiando na Cooperação!