Sidnei Soares
Projeto Cooperação – Comunidade de Serviços
Florianópolis-SC. BRASIL
sidnei@projetocooperacao.com.br
Acolhimento e Cooperação
“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmos.” Marguerite Yourcenar
Vitor é um sujeito intenso, comunicativo e verdadeiro. Um guerreiro, literalmente. Tem um longo caminho na tradição Lakota. Fez treze dias na montanha, dança do sol e muito mais. Conduz a cerimônia do temascal e é um líder do Caminho Vermelho, um guardião dos conhecimentos e das tecnologias dos povos ancestrais da nossa grande América. Além disso, é um experiente psicoterapeuta somático. Diz-se que tem pai que é uma mãe. É o caso do Vitor. Ele tem dois filhos. Fênix, um garoto de 17 anos, que é líder da Unes e uma filha universitária – que não lembro o nome. Criou os filhos desde pequenos, sozinho. Fênix tinha alguns meses. O orgulho com que fala dos filhos é visível.
Magali é uma pessoa terna, ativa, de olhos brilhantes. Uma cientista, estudiosa, aplicada, visionária, moderna e solidária. É geneticista. Em parceria com a URGS desenvolve uma linha de pesquisa inédita no Brasil. Pretende introduzir um gene humano (eritropoeitina) em sementes de milho e com isso obter um medicamento para tratamento de insuficiência renal e anemias graves em seres humanos. Além de aulas, orientações, pesquisas, artigos, leituras especializadas, encontra tempo ainda para dedicar-se a comunidade. No sábado cedinho foi pegar na feira de produtores locais mudas de alcachofra. Está desenvolvendo junto com alunos, uma pesquisa para produção local de alcachofra. E com isso melhorar a renda dos pequenos agricultores.
Vitor e Magali se conheceram num Temascal, quando ele foi dar um curso em Passo Fundo. Vitor estava de malas prontas para morar nos EUA. Em poucos meses estavam juntos. Quando os amigos, por e-mail, perguntavam em que lugar dos “staites” ele estava, respondia: Deep Stap, uma livre tradução para Passo Fundo. Ele conta e dá risadas. Eles formam um casal contemporâneo que faz uma bela síntese entre a tradição e ciência.
Vitor e Magali foram nossos gentis e generosos anfitriões nos dois dias que passamos em Passo Fundo-RS. Somente para ilustrar os adjetivos, Magali na noite fria da palestra, do nada, nos traz um copo térmico com chá de erva doce quentinho. Vitor nos entregou seu corolla que andamos pra cima e pra baixo.
Conheci Vitor num Módulo que facilitei no Curso de Pós-Graduação em Psicologia Transpessoal, do Itecne-PR, realizado aqui em Floripa. Logo após os trabalhos, Vitor me procurou, mostrou seu projeto de um curso de extensão sobre paradigma emergente, encampado pela recém inaugurada Faculdades Anglo-Americana de Passo Fundo. Convidou-me para fazer uma palestra de lançamento do curso e facilitar o primeiro módulo do programa. Convite feito, convite aceito.
Quando eu e Lica chegamos o dia ainda não tinha clareado. Tomamos um táxi e fomos direto pro hotel. Fazia um frio gostoso, uns 8 ou 9 graus. O primeiro frio é assim gostoso, depois a gente vai ficando com saudades do calor. Pra mim, pelo menos, é assim que funciona.
No hotel tivemos a primeira demonstração da famosa hospitalidade do povo de Passo Fundo. O jovem que atendia na recepção, ao perceber que o apartamento reservado só ficaria liberado depois das 12:00 horas e não havendo outros disponíveis, não teve dúvidas em nos oferecer a melhor suíte do hotel. Depois, ao meio dia fomos gentilmente transferidos para o confortável quarto a nós reservado. Estas demonstrações de acolhimento foram se repetindo em várias situações ao longo de nossa estada na cidade.
Depois de descansar, tomamos um bom café e fomos bater pernas. Nosso próximo encontro seria somente à tarde com a Diretora da Anglo-Americana.
Passo Fundo é uma cidade de aproximadamente 200 mil habitantes. Conserva muitos traços de cidade típica do RS. Imagine que no centro da praça tem uma gigantesca cuia de chimarrão com uma poesia gravada em bronze exaltando a hospitalidade do passofundense (será que é esse o gentílico deles?). É comum encontrar homens pilchados. Um deles estava pilchado com bombacha verde e camisa amarelo. Mais patriota impossível. Uma pena que a máquina fotográfica ficou no hotel. Mas se é conservadora por um lado, por outro é muito moderna. É um importante centro universitário e médico da região. Só a UPF-Universidade de Passo Fundo tem 20 mil alunos e tem um centro de biologia que é referência nacional. Os hospitais fazem transplantes de coração. Não é pouco né?
Também é uma cidade de mulheres bonitas. Vimos um cartaz do cara que descobriu Gisele Bundchen procurando novas beldades. O evento iria rolar, no próximo fim de semana, no mesmo hotel onde ficamos hospedados. Ainda bem.
No centro da cidade andamos pela Rua Moron. Uma charmosa rua cheia de lojinhas, cafés, etc. toda plantada com patas de vaca, nos dois lados da rua, ao longo das calçadas. Esta rua atravessa lateralmente a praça da matriz (a mesma da cuia gigante).
De tarde junto com Vitor fomos conhecer a Ango-Americana e sua admirável diretora. Marisa Zílio é uma mulher simpática, inteligente. Com boa oratória e excelente escutatória (a arte da escuta). Comunica-se com suavidade e diplomacia. Apesar de sua grande responsabilidade e de sua agenda cheia de compromissos parece que dispõe de todo o tempo e nos trata como as pessoas mais importantes do mundo. Percebe-se a prática da presença, do aqui e agora. Ficamos encantados com esta mulher. Foi por intermédio dela que ficamos sabendo da excelência de Passo Fundo em medicina. Nos conta que dali a poucos dias vai se submeter a uma importante cirurgia do coração, ali mesmo na sua cidade. Com simplicidade diz que não quer criar dificuldades para os seus parentes e amigos durante o período pós operatório.
A palestra foi um sucesso. Foi vivencial. Com roda, dança, jogo, tudo mediado por conceitos adequados ao meio acadêmico. No jogo 1…2…3 falamos de hemisférios cerebrais e aprendizagem . Na harmonização do círculo tocamos nos processos de melhorias contínuas, visualizamos a existência da unidade na diversidade e na singularidade (igual a preciosidade) de cada um na grande comunidade planetária. Na dança circular vivenciamos a criação de um poderoso campo colaborativo e sentimos o que são propriedades emergentes. Tudo permeado com descontração, alegria e bom humor, próprio de nossa pedagogia da cooperação.
Deu pra perceber pelos feed-backs e pelos brilhos nos olhos de todos – este o melhor indicador, que as pessoas saíram com “gostinho de quero mais”. Não fosse pelo horário, 22:20 de uma sexta-feira, estenderíamos o programa.
Agora que o projeto esta lançado, planejamos voltar para facilitar o primeiro módulo e desfrutar mais um pouco desse lugar e povo hospitaleiro. Espero poder retornar na companhia da Lica, minha companheira de muitas e longas jornadas. Viajar com ela é sempre muito gostoso, tranqüilo. Ela é ligada em tudo o que acontece e acabo aproveitando mais intensamente a viajem. Sem contar que, boa psicopedagoga que é, colabora comigo na compreensão de muitas situações nos ambientes de trabalho. É minha melhor crítica. Amorosa e entusiasmada.
Era manhãzinha do dia 10 de maio (dia das mães) quando chegamos a Floripa. Na estrada olhava para o céu e tive uma inesquecível visão. A leste o sol brilhante, dourado, nascia atrás de umas poucas nuvens, a oeste a lua despedia-se relutante com um brilho azul translúcido, como nunca vi. Assim como Vitor, nesta viagem fiz um excelente exercício de paravisão. No contato com todas as pessoas, atento, fui identificando gestos, atitudes e comportamentos de cooperação. Sinto que nasci mais um pouquinho.
Outono de 2009.
Sidnei da Costa Soares